Lúcio Maia, da Nação Zumbi, é conhecido por sua inventividade como guitarrista. Em nossa conversa, falamos sobre a criação da trilha sonora do polêmico Amarelo Manga, o cenário cultural de Recife e sobre a sua metodologia de vida, de estar sempre com a cabeça no futuro. Juntar um cara que gosta de falar com um que gosta de ouvir dá nisso: o texto é longo, mas o papo é bom. Aproveite – a cerveja e o amendoim são opcionais.
Já tinha pensado em fazer trilhas?
Eu gosto muito de cinema, não só eu como os caras [Nação Zumbi] também, a gente sempre teve uma relação muito próxima com cinema etc. Meu primeiro convite foi na época do Baile Perfumado, em 94. Aquele foi o primeiro contato direto que eu tive com trilha sonora e como é que se trabalha em cima de roteiro, em cima de imagem, essas coisas todas. Então quando o Cláudio Assis fez o convite pra fazer essa trilha [Amarelo Manga], a coisa já tava bem mais amadurecida na cabeça da gente, na maneira de como conduzir, então a gente preferiu ao invés de fazer em cima do roteiro, fazer em cima das imagens. Então ele rodou o filme inteiro e depois a gente se apoderou das imagens e dali a gente começou a compor. Criou mais clima dentro daqueles cenários, da composição música-imagem, ficou mais fácil da gente trabalhar. E eu achei bem mais divertido também dessa forma, com uma idéia já pré-concebida. Porque você tentar criar em cima de um roteiro fica muito vago, porque cada um cria uma imagem do seu personagem, cada um cria uma imagem na cabeça daquela cena, então dispersa demais; é melhor quando já tem uma idéia pré-concebida e dali você dá continuidade, dali você começa a compor.
Como foi o contato com o Cláudio Assis?
Na real, foi depois do Baile. Num bar à noite, ele chegou falando “Consegui terminar meu longa, agora vou fazer captação e eu quero que vocês façam a trilha!”. Eu e Jorge [du Peixe], no caso. De lá pra cá levou uns 5 anos. Desde o momento que ele conversou a primeira vez com a gente até hoje, levou bastante tempo. Os problemas que existem no Brasil pra você captar dinheiro, pra fazer filme etc. O dinheiro nunca dá, então você tem uma grana pra começar o filme, aí tem que arrumar outra pra terminar e outra pra finalizar. Quando a gente viu o roteiro do Amarelo Manga, todo mundo gostou pra caramba, eu e Jorge achamos super interessante. E achamos também que ia ser legal a gente criar uma áurea dentro do filme, que não precisasse necessariamente ter essa identificação com mangue ou com Recife, com a cena da cidade. O filme acontece em Recife, mas na verdade aquele filme pode ser em qualquer lugar, pode ser no Irã, sei lá. Então a gente não quis ficar preso a ficar criando estereótipo musical, colocar uma rabeca, uma sanfona. A gente quis se desprender totalmente disso e deixar com que o filme pudesse alcançar vários lugares, sem precisar ser taxado como uma coisa. Sei lá, meio world music, sabe, como se fosse um “world groove”, que desse pra ele ter um alcance grande. Então essa foi a idéia principal de que a gente partiu pra fazer a trilha.
E rola uma identificação com o filme?
Ah, total, cara, é um filme bem recifense, eu diria. É um filme bem normal, assim do dia-a-dia, tem essas escabrosidades – você precisa primeiro conhecer o perfil do diretor, de Cláudio Assis, que o filme é a cara dele. Ele sempre foi um cara bem peculiar de comportamento, de atitude. Então logicamente a gente topou fazer, porque era muito interessante usar o contato que a gente já tinha diário com o Cláudio Assis, sabendo as coisas que ele fazia, que ele escrevia, que ele falava. Ele sempre foi um cara meio maldito pra muita gente aqui na cidade, porque ele fala o que acha, o que pensa e geralmente isso incomoda muita gente. Então esse tipo de subversão é bem interessante de se trabalhar. E teve bem mais repercussão do que a gente imaginou. Sem contar que é um filme completamente fora dos padrões comuns, começa com uma mulher mandando todo mundo tomar no cu. É bem pesado, mas ao mesmo tempo é um filme que quebra essa cortina da mediocridade, da gente achar que o mundo não é desse jeito – é muito assim, muito mais do que a gente pensa. Acho que não tem nem classe social que diferencie essas coisas, acontece em qualquer lugar. Tanto na favela quanto na zona sul tem gente desse jeito, mulher indignada, mulher mal-amada, homossexuais que não conseguem ter uma valorização na vida ou não conseguem se dar bem amorosamente etc. Manter a leitura →