Bom, o André Abujamra dispensa apresentações…
Então segue sua entrevista, em que conversamos sobre trilhas sonoras e seu processo criativo.
Quantas e quais trilhas você fez?
Vinte. Carlota Joaquina, Carandiru, Caminho das Nuvens, Os Matadores, As Três Marias, Copo de Cólera, Castelo Rá-Tim-Bum, Bicho de Sete Cabeças, Durval Discos, Ação Entre Amigos, 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras, Nem Gravata Nem Honra… Cara, uma porrada!
Pra você, qual é o papel da trilha no filme?
O meu sonho quando eu era pequenininho era fazer música pra cinema, então eu acho que é quase 50%, seria 40% do filme a trilha. Isso somando a música com o som do filme, claro. Falando em porcentagem, da importância, assim, eu acho que é quase 50%, vai…
Como você pensa a trilha?
Olha, isso aí é muito louco, porque cinema é uma arte que engloba todas as artes, então depende muito do diretor. Cada trabalho de cinema, de trilha sonora de cinema é uma coisa completamente nova pra mim, não existe nenhuma regra. Não existe nada parecido, nem uma trilha com a outra, porque tem diretor que quer a música antes dele filmar, tem diretor que dá o filme pronto pra você fazer a música, tem diretor que já sabe que tipo de música que quer, tem diretor que quer que você invente do nada, então cada experiência de uma trilha é única. Isso eu acho um tesão e eu sempre tento me diferenciar – por exemplo, o Castelo Rá-Tim-Bum eu fiz com uma orquestra sinfônica e o Bicho de Sete Cabeças eu fiz tocando tudo sozinho.
Qual a relação entre som e imagem pra você, como encara isso?
É assim, eu não consigo ver uma imagem sem som e eu consigo ver imagem sem som quando a imagem é sonora – não sei se é muito louco o que eu tô falando, mas eu vou te explicar. É muito fácil fazer trilha pra um filme que a montagem é musical, que a imagem é musical – o que quer dizer isso: quando você vai fazer a música pra um filme, se a edição desse filme e a imagem, elas… Vamos fazer uma coisa bem doida: é como você ir numa festa e você está com uma roupa especialmente pra dançar, então por exemplo, se a imagem tá apropriada pra você colocar uma música, é muito mais fácil. Então existe o tempo, o ritmo de imagem que é musical, mesmo sem som – não sei se você tá conseguindo entender o que eu tô falando. Existe uma imagem que ela é propícia pro som e existe a imagem que é muito difícil porque ela não é musical. Porque silêncio pra músico é música também! É como quando você tá paquerando uma menina numa boate, numa festa e ela tá dançando fora do ritmo, aquela imagem tá errada, entendeu, se tirar o som e ver ela dançando você vai sacar que a música da imagem tá errada. É muita viagem, mas é verdade! (risos) A idéia é a seguinte, que se você fizer um filme sem trilha sonora, mas a imagem for musical, se existir uma musicalidade na imagem, você consegue escutar som! É uma viagem, mas é verdade…
Como é o seu processo criativo?
Meu processo criativo de trilha sonora pra cinema é o seguinte: eu ir pra uma praia ou eu andar de metrô, eu andar na rua e começar a imaginar não a música do filme, mas o quê que aquele filme tá trazendo pra mim. Eu só sento no computador e a caneta na orquestra quando eu já sei exatamente como é a trilha. Caminho das Nuvens eu fiz muito rápido, eu fiz uma trilha voando, porque eu já sabia exatamente como é que era o som dentro da minha cabeça. Então, genericamente, eu já sei a trilha antes de eu compor ela – antes de compor não, antes de eu botar a mão na massa. Eu testo antes de botar a mão na massa, testo só na cabeça. Tô te fudendo, né? (risos)
Conta um pouco suas experiências fazendo trilhas.
Olha, tem a experiência do Castelo Rá-Tim-Bum, que a gente tinha 40 dias pra entregar 90 minutos de música com orquestra, então eu dividi a trilha com o Lulo Camargo, que era o tecladista do Karnak. A gente escrevia as partituras de madrugada, mandava por internet pro maestro, o maestro mandava pra um copista, quando chegava 9 horas da manhã tavam as partituras na orquestra, a gente gravava a orquestra das 9 da manhã às 6 da tarde, chegava em casa eu escrevia mais… A gente fez uma viagem, o Castelo é a trilha mais legal! Outro filme que eu amei fazer foi o Caminho das Nuvens – esse filme é maravilhoso, gosto muito desse filme. Eu tinha acabado de fazer o Carandiru, que foi super desgastante pra mim, mas não porque foi ruim, mas porque era um filme muito pesado, muito difícil de achar trilha, um filme muito denso na minha vida. E o Caminho veio logo em seguida e não tinha tanto dinheiro como tinha o Carandiru. Então eu escrevi um quarteto de cordas e toquei todos os instrumentos, então foi um exercício de tocar tudo, foi muito interessante. Mas basicamente, cara, o que eu quero te dizer, é que pra você fazer trilha de cinema – um longa-metragem tem esse nome porque ele é longo, é muito complicado você ter uma metodologia. Pra você fazer trilha sonora você não tem que ter metodologia, você tem que criar a metodologia do próprio filme na hora, porque é muito difícil você não deixar a música sobressair ao filme, é muito difícil você não encher o saco do público com uma música recorrente. É muito complicado mesmo, é um exercício muito delicioso, é a minha vida fazer trilha, cara!
Há quanto tempo você faz trilhas?
Eu fui casado com a Anna Muylaert, que é a diretora do Durval, então quando eu conheci ela, eu fiz 800 curtas pros amigos dela que faziam faculdade, eu aprendi a fazer. Então eu tô fazendo trilhas há muitos anos, de teatro também. Só que o primeiro longa que eu peguei mesmo foi o Carlota Joaquina, que foi a retomada do cinema nacional. Do Carlota pra cá, nossa, foi um atrás do outro, não parou… Tesão!
E a trilha de Bicho de 7 Cabeças, que foi super premiada?
Super premiada! É legal falar dessa trilha, porque a diretora, a Laís Bodansky, chegou pra mim… Ah, tem uma coisa! Eu faço publicidade pra sobreviver, além de fazer meu trabalho de música pop. Mas eu não cuspo no prato que eu como não, até curto. Mas uma coisa que eu não gosto em publicidade e que eu defendo muito as pessoas pra não pedir pra mim é referência. Eu falo pra elas “meu, eu não gosto de referência, se você quiser que eu crie uma ponte pênsil pra você, eu construo do zero, agora se você quiser que eu faça uma ponte pênsil parecida com a de Paris, eu não vou conseguir fazer. Se você quiser que eu faça um tecno parecido com Pet Shop Boys, eu não vou conseguir fazer, agora se você quiser que eu invente um tecno pra você, eu invento”. Pra qualquer coisa, pra vida. Se você chegar pra dar um beijo na sua namorada e falar “mas eu quero que você me beije que nem a Pamela Anderson” – não existe isso, sabe. Se a pessoa me chama pra fazer uma música, eu tô vindo com a minha criação, eu não quero fazer uma música parecida com o Sakamoto, porra. Na primeira discussão com o cineasta, eu falo “olha, você pode pedir o que quiser pra mim, desde que eu crie – não vem me trazer trilha parecida com num sei o que, pra fazer igual”. Isso é uma coisa que tem gente que gosta, mas eu não gosto. Eu tô te falando tudo isso porque quando eu fui fazer o Bicho de Sete Cabeças, a Laís sabia exatamente o que ela queria e ela queria inclusive que fosse o Arnaldo Antunes que fizesse a trilha. Aí eu falei “olha, Laís, pra mim é muito difícil pegar música dele, num sei que, num sei que lá…”. Mas ela me namorou de um jeito que eu fui, peguei o disco do Arnaldo, tirei a voz dele e fiz a minha loucura em cima da voz dele, ficou uma coisa muito doida, foi um exercício muito interessante pra mim, foi a primeira vez. O Arnaldo é um puta compositor e eu fiz a minha trilha, destruí a minha trilha em cima da… Eu tava me separando da minha segunda esposa, então eu tava bem deprimido, fiz uma trilha bem depressiva, com bastante ruído. É uma trilha legal, eu gosto muito, bem suja, tem distorção em tudo ali, até peido, tem distorção até no peido que eu soltei no estúdio lá! (risos)
E no 1,99, que a trilha é personagem fundamental?
O que acontece com o 1,99 é o seguinte: o Masagão [Marcelo, diretor], aquele fiadaputa, é meu amigo, viado, ele é apaixonado por aquele compositor belga, eu não sei o nome, sei lá… Eu não fiz a música desse filme, eu fiz o som. A música é de um cara minimalista aí, muito louco…
Wim Mertens.
Esse Wim Mertens aí. Eu falei pra ele [Masagão] “porra meu, chama eu pra fazer”, ele “não, eu quero fazer com aquele cara, num sei o q…”. Aí, ele falou “não, mas você precisa fazer o som”. Aí eu fiz o som, a trilha tem uma ou duas músicas minhas só. Eu particularmente não gosto muito do filme e acho a música chata pra caralho, mas eu já falei isso pro Marcelo. Mas é uma merda mesmo, mas é ruim, viu…! (risos)
Mas e a música como único personagem?
Ah, isso é muito legal. O que eu mais gosto de fazer mesmo é trabalhar a música como um personagem, mas não um personagem – eu gosto muito de música recorrente, sabe, tema de filme. Por exemplo, o Carandiru. É que a trilha ficou muito baixa, mas é bem legal, eu compus com três notas só o filme inteiro. O tema do filme são três notas, que são do sabiá-laranjeira. Eu tava escutando um sabiá no meu jardim e ele fazia (assobia imitando o sabiá). Ele cantava essa três notas, aí eu falei “puta, eu vou usar a melodia do sabiá-laranjeira pra fazer o tema do filme!”. E pra mim esse tema foi um personagem, essas três notas. Mas mais uma vez eu te falo, isso é uma viagem interpessoal minha, não tem nada a ver. Não existe regra, sacou. Se você tá escrevendo a matéria pra neguinho saber como é que se cria, não existe regra, cada filme é uma historinha, cada filme é uma loucura, é uma viagem interna do compositor junto com o diretor.
Tem uma frase de efeito pra encerrar?
Genial, legal! (risos) Basicamente, se você quiser colocar uma frase de efeito, fala “Abujamra diz: não há regras!” (risos).

